A história da origem do bitcoin não começa com a mordida em uma moeda radioativa, um técnico de laboratório sendo exposto a radiação de negociação ou um meteoro com uma moeda extraterrestre colidindo com a Terra. Ele começa com o sonho de um sistema de dinheiro genuinamente eletrônico e utilizado diretamente entre as partes (peer-to-peer).

Podemos considerar que o bitcoin dominou o mercado de criptomoedas desde seu início, atuando como um catalisador que abriu espaço para milhares de moedas sucessoras. Mas onde começou a história do bitcoin? Como esse ativo digital aparentemente mágico chegou a nossas vidas cotidianas? Quem está por trás dele?

Todo grande super-herói possui uma história de origem igualmente emocionante. Neste artigo, vamos voltar no tempo para analisar o nascimento de nossa “supermoeda” favorita: o bitcoin.

Era uma vez…

Qualquer pessoa que conheça o mundo das criptomoedas sabe que o bitcoin, a “primeira” criptomoeda, foi criado em janeiro de 2009. Mas nem todos sabem que, para realmente entender a história do bitcoin, é preciso voltar ainda mais no tempo.

O mundo antes do bitcoin

Vamos imaginar a cena: o ano é 1982, e a privacidade para realizar pagamentos pela internet ainda não chegou a seu melhor momento — para dizer o mínimo — e gera preocupação. Como você pode realizar pagamentos seguros?

David Chaum, um cientista de computação, teve a mesma preocupação. Ele publicou um artigo intitulado Blind Signatures for Untraceable Payments (Assinaturas cegas para pagamentos não rastreáveis) um claro indicador de que ele também não estava muito satisfeito com a privacidade dos pagamentos na internet. Mas o que ele fez? Ele propôs o conceito de eCash (dinheiro eletrônico), especificamente, o DigiCash.

Assim como o bitcoin, o DigiCash foi projetado para ser uma moeda on-line segura. Infelizmente, as coisas não saíram muito bem, e o DigiCash acabou quebrando no final da década de 1990. No entanto, isso abriu caminho para pessoas como Adam Back, o inventor do Hashcash, um modelo de prova de trabalho que acabaria se tornando a base do bitcoin.

Pulemos para os anos 1990, que presenciaram o surgimento de duas tentativas de criação de criptomoedas: a B-Money de Wei Dai e a Bit Gold de Nick Szabo. Ambas foram formuladas, mas infelizmente, nunca desenvolvidas. Portanto, não podemos lhes atribuir o título de “primeira criptomoeda”.

E chegamos a agosto de 2008. Silenciosamente, o bitcoin.org foi registrado on-line. Dois meses depois, foi lançado o artigo técnico. Bitcoin: A Peer-to-Peer Electronic Cash System (Bitcoin: um sistema de dinheiro eletrônico peer-to-peer) foi transmitido em uma lista de correio sobre criptografia, autorizada por um nome que acabaria sendo conhecido como Satoshi Nakamoto.

A era do bitcoin

2009

Se o bitcoin.org foi registrado em 2008, quando o bitcoin foi criado? Em 3 de janeiro de 2009, o código começou a indicar o nascimento do bitcoin. Alguns dias mais tarde, foi minerado o primeiro bloco da história, o chamado “Genesis Block”.

Em 9 de janeiro, a primeira iteração do software do bitcoin tornou-se disponível ao público, e começou a mineração. No dia 12, 10 BTC foram enviados de Satoshi Nakamoto a Hal Finney, célebre programador e desenvolvedor de computação, uma troca que ficou conhecida como a primeira transação de bitcoin.

Em outubro daquele mesmo ano, o bitcoin recebeu seu primeiro valor em dólar do NewLibertyStandard, um influente fórum de usuários. Na época, US$ 1 valia 1.309,03 BTC, um número baseado em quanta energia elétrica um computador médio usaria para minerar um único bitcoin.

2010

Em 2010, o bitcoin passou a contar com suas primeiras plataformas de troca: Bitcoinmarket em fevereiro, e Mt. Gox em julho. A Bitcoinmarket foi a primeira plataforma a tratar do BTC como mercadoria, criando de fato o mercado que conhecemos hoje.

Logo depois, foi feita a primeira compra com BTC, e você certamente já conhece essa história. Alguém decidiu vender duas pizzas por 10.000 BTC. Na época, o valor aproximado de duas pizzas era US$ 25. Dali em diante, 22 de maio de 2010 ficaria conhecido como o Dia da Pizza Bitcoin. No momento em que este artigo é escrito, 10.000 BTC valem US$ 113.740.000. Isso mesmo!

Logo depois de concretizada a negociação mais infeliz com BTC, o valor do bitcoin superou a casa dos centavos (US$ 0,01) e o valor de mercado ultrapassou US$ 1 milhão em novembro.

2011

Em fevereiro de 2011, o bitcoin atingiu seu próximo marco ao equivaler seu valor a US$ 1. Nosso ativo digital favorito começou a ganhar cada vez mais destaque na imprensa, positivo e também negativo. Vamos começar com o destaque negativo. Infelizmente, foi descoberta a Silk Road, mercado negro digital utilizado principalmente para comprar e vender drogas.

A Mt. Gox também sofreu uma grave violação de segurança que comprometeu milhares de suas contas e o BTC a elas vinculado. A boa notícia é que o bitcoin recebeu seu primeiro destaque na revista Time… Bem, talvez devêssemos ter começado com a boa notícia.

De qualquer forma, outro grande evento ocorrido em 2011 foi a saída de Satoshi Nakamoto do projeto do bitcoin. Mike Hearn, um dos principais desenvolvedores do bitcoin, recebeu um e-mail em um dia fatídico em que Satoshi Nakamoto afirmava que o criador do bitcoin “passou a cuidar de outras coisas” e sentia que o futuro do bitcoin tinha sido deixado “em boas mãos”.

Quando Satoshi “se aposentou”, foram deixados alguns aspectos notáveis para trás: a premissa dos trabalhos de bitcoin, uma coleção de notas e escritos, e possivelmente a criptomoeda mais influente de todas.

2012–2013

Em 2012, o valor do bitcoin atingiu a marca de US$ 100 pela primeira vez. Foi também o ano em que ocorreu o primeiro halving de bitcoin, evento em que as recompensas por bloco para os mineradores são cortadas pela metade para evitar a inflação no sistema da criptomoeda.

Em 2013, o valor do bitcoin superou US$ 1.000 pela primeira vez.

2014

Em 2014, dissemos adeus a uma das primeiras plataformas de troca de bitcoin, e a Mt. Gox saiu de cena. Ela entrou com pedido de falência e encerrou suas atividades em abril daquele ano devido a outra violação que comprometeu sua plataforma.

Há até hoje processos judiciais em andamento e inclusive propostas de reviver a então popular plataforma de troca de bitcoin.

2015–2016

2015 foi um ano de fortes altos e baixos, quando a criptomoeda não atingiu nem seu pico nem seu valor mais baixo.

Em 2016, ocorreu o segundo halving de bitcoin, e a recompensa para os mineradores passou a ser de 12,5 BTC. Na época, o bitcoin também tentou escalar uma alta, já que seu preço refletia apenas uma sombra do que um dia havia sido.

2017

2017 foi um dos anos mais movimentados para o bitcoin. Se 2016 foi um ano em que o bitcoin tentou se recuperar, 2017 se tornou extremamente próspero para o nosso ativo digital favorito. Pela primeira vez, seu valor atingiu novamente a marca de US$ 1.000, algo que não acontecia desde 2013. Mas ele não parou por aí. Em outubro, seu valor alcançou US$ 6.000 e terminou novembro em acelerada alta, quando atingiu pela primeira vez a marca de US$ 10.000.

Graças ao rali de alta do bitcoin, os investidores começaram a se apavorar com a possibilidade de ficar de fora do que parecia ser a grande oportunidade. No final de dezembro, o bitcoin passou a valer algumas centenas de dólares mais que US$ 20.000, selando seu maior valor de todos os tempos. Infelizmente, ele parou por aí.

2018–2019

2018 foi um ano desolador para muitos titulares da criptomoeda. Muitos deles esperavam que o preço do BTC continuasse subindo e se encontraram na ponta final da oferta. Muitos venderam enquanto ainda podiam, mas a maioria sofreu perdas por comprar BTC por seu preço máximo.

Foi um início duro para a trajetória do bitcoin em 2019, que começou com a moeda valendo US$ 3.700. No entanto, a moeda passou a chamar a atenção novamente ao atingir o valor de US$ 12.000 em julho, o pico anual. Mas com o medo reforçado por quedas anteriores, as pessoas estavam cautelosas. E com motivo, já que o preço da criptomoeda cedeu para cerca de US$ 8.000 ainda no mesmo ano.

2020

Já passamos da metade da montanha-russa que está sendo 2020, e o bitcoin segue imprevisível como nunca. O ano começou forte, com o preço subindo de aproximadamente US$ 7.000 para US$ 10.000 em fevereiro. Só que em março, ele caiu forte para a faixa de US$ 5.000.

Em maio passado, foi realizado outro halving. No mês seguinte, o valor da moeda voltou a subir para cerca de US$ 10.000.

No momento em que este artigo é escrito, o preço reside estável na faixa de US$ 11.000 a US$ 12.000.

Quem está por trás do bitcoin?

Até hoje, ninguém sabe quem é Satoshi Nakamoto realmente. É um pseudônimo que segue sendo um mistério. Alguns acreditam que Nakamoto é homem, alguns creem que se trata de uma mulher, e outros pensam nele até mesmo como robôs ou um grupo de pessoas. Esse mistério sem solução só suscita mais perguntas que respostas. Muitos indicaram diversos suspeitos que poderiam ser “a pessoa”.

Vejamos rapidamente alguns dos principais suspeitos:

  • Nick Szabo. Szabo é o fundador da Bit Gold e teve ideias bem similares às de Satoshi Nakamoto.
  • Hal Finney. Finney é um dos primeiros apoiadores do bitcoin. Ele também foi um desenvolvedor de destaque e a outra parte envolvida na primeira transação de bitcoin.
  • Craig Wright. O próprio Wright já disse publicamente ser o próprio Nakamoto e prometeu provar isso um dia. Infelizmente, como esse dia ainda não chegou, não sabemos se é realmente ele.
  • Gavin Anderson. Anderson é o desenvolvedor de software que assumiu o posto depois que Nakamoto deixou o projeto. Alguns dizem que sua caligrafia é muito parecida com a de Nakamoto.
  • Dorian Nakamoto. Como não poderíamos incluir Dorian Nakamoto? Algumas fontes dizem até mesmo que ele se chamava “Satoshi Nakamoto” ao nascer. Seu trabalho em engenharia e vida privada bastante discreta fizeram dele um dos principais suspeitos. Apensar de negar tais alegações e de o próprio Satoshi Nakamoto ressurgir para dizer “Eu não sou Dorian Nakamoto”, quem sabe? Tudo pode ser um disfarce.

Neste momento, nunca poderíamos saber a verdadeira identidade de Satoshi Nakamoto. A única coisa que podemos fazer é cuidar bem do maravilhoso presente que Nakamoto nos deixou e tentar não enlouquecer pensando na identidade por trás do inventor.

Regulamentações do bitcoin

Ao longo da história do bitcoin, as regulamentações impostas sobre a moeda têm sido nebulosas, para dizer o mínimo. Isso porque as leis e regulamentos sobre o bitcoin são muito diferentes em cada país e jurisdição.

Na maioria dos casos, regras de verificação de identidade (KYC) e antilavagem de dinheiro (AML) se aplicarão a plataformas de troca e negociantes que movimentam grandes valores. À medida que seguimos pela evolução do bitcoin, podemos ver governos começando a deixar de ver o uso do BTC como atividade criminosa, mas precisaremos esperar para ver.

O futuro do bitcoin

O poder e a aceitação de cada super-herói dependem muito das histórias de sua origem, e com o bitcoin não é diferente. Você já sabe agora o que estará na primeira edição da revista em quadrinhos do bitcoin, mas como se desenvolverá a saga daqui para frente?

Com o passar dos anos, temos notado cada vez mais pessoas adotando o bitcoin em suas vidas cotidianas. Neste momento, ele não se destina apenas a investimento. Estão começando a ver a moeda como uma forma nova e única de realizar pagamentos. O bitcoin soluciona um problema para pessoas com pouco ou nenhum acesso a serviços bancários ao proporcionar um passaporte financeiro, algo que lhes permitirá negociar de um modo que nunca puderam antes.

Quanto ao que acontecerá no futuro do bitcoin, se ele será adotado amplamente ou se desaparecerá no vazio depois que esgotar o fornecimento de 21 milhões, precisaremos esperar para ver. Agora, parece que estamos em um bom momento. Portanto, vamos aproveitá-lo enquanto durar e tirar máximo proveito disso.

Obrigado, Satoshi Nakamoto! (Seja lá quem for.)